Casas de passagem
Our house is a very, very, very fine house
Os meus vizinhos mudaram outra vez. A casa da frente tem esta estranha vocação para mudar de gente sem nunca mudar verdadeiramente de vida.
Estes últimos já conhecia, andámos na mesma secundária. Ela tinha sempre a cara fechada, o nariz empinado, uma postura que naquela altura me parecia arrogância e hoje talvez reconheça apenas como timidez mal disfarçada. Ele era o contrário, mais descontraído, desses que nunca pareciam demasiado preocupados com o dia seguinte. Conhecíamo-nos dessas outras vidas que todos vamos acumulando e às quais chamamos adolescência, embora suspeite que a adolescência nunca acabe verdadeiramente. Como os gatos, também eu já devo ir na quinta ou sexta vida.
Agora chegaram outros. Um casal, um cão e um filho de quatro anos. Vieram na pior semana da vaga de calor, quando até o ar parece desistir de circular e caminhamos pela rua como quem transporta o próprio corpo às costas. Ele é polícia. Ela ainda não percebi bem o que faz. São familiares da senhoria e foi ele quem, na primeira conversa, me disse que conhecia aquela casa desde pequeno, que ali passara tardes inteiras quando tinha a idade do pequeno S., o filho deles. Temos exactamente a mesma idade. Achei curioso como duas pessoas podem partir praticamente do mesmo ponto e chegar a geografias tão diferentes. Eu continuo a viver em casa dos meus pais, algures nesse limbo moderno a que chamam precariedade, vestido todos os dias com um fato e uma gravata de uma profissão que sempre me garantiram ser nobre e respeitada. Ele regressou a uma das suas casas da infância já com um filho, um cão e uma vida que, vista de fora, parece ter encontrado uma estabilidade que eu ainda procuro. Não o invejo. Limito-me a reparar.
O pequeno S. tornou-se rapidamente o centro do beco. Todos os holofotes nele.
Há crianças que chegam e ocupam um espaço inteiro sem pedirem licença. A minha mãe olha para ele, quando está no nosso pátio a regar e diz-me que eu também era assim, embora logo corrija a memória dizendo que talvez fosse um pouco mais sossegado. As mães fazem isto com uma facilidade desarmante. Reescrevem-nos a infância para que ela caiba melhor na ternura delas. Eu acredito sempre nelas, mesmo sabendo que a memória é uma mentirosa educada.
Olho para o miúdo e lembro-me de outra coisa. Lembro-me da senhoria e da mãe dela viverem naquela casa. Lembro-me de entrar naquele quintal que, na minha cabeça de miúdo, tinha o tamanho de um aeroporto, quando hoje mal chega para uma piscina insuflável e duas espreguiçadeiras, parecendo-me mais um canteiro largo e espaçoso. Todos os verões montavam ali uma piscina. Este ano voltou a aparecer uma, exactamente no mesmo sítio, mas agora para o pequeno S. Há uma espécie de justiça silenciosa nisto. As casas repetem os gestos mesmo quando mudam as pessoas.
A verdade é que aquela casa nunca conheceu verdadeiramente a estabilidade. Depois da senhoria vieram um casal e um cão. A seguir chegaram os gémeos e, de repente, a casa ficou pequena demais para tanta vida. Depois apareceu outro casal de quem gostei particularmente. Ele era alentejano até à medula, daqueles homens, profundos da planície. Ela era tão de Setúbal que até os erres lhe saíam com escamas. Ele deu-me explicações de Matemática e de MACS durante o secundário, desistindo cedo da ideia de fazer de mim um homem dos números, decisão acertada de parte a parte. Mais tarde passámos algumas noites de verão a beber cervejas frescas no quintal enquanto o calor finalmente nos largava os ossos. Também eles tiveram filhos. Hoje cruzamo-nos de vez em quando no supermercado e sorrimos um para o outro com aquele sorriso reservado das pessoas que já pertenceram à rotina uma da outra.
Depois veio uma viúva e um cão. Foi quem mais tempo ali viveu. Tempo suficiente para deixar de ser apenas viúva. Apaixonou-se outra vez, encontrou um homem bastante mais velho do que ela e foi viver para Itália, a terra dele, creio eu. Nunca lhe perguntei se encontrou lá a felicidade.
Começo a acreditar que aquela casa tem um destino próprio. Entram cães. Entram crianças. Ou entram casais que acabam por as fazer. É como se aquelas paredes recusassem o silêncio durante demasiado tempo. E eu observo tudo isto da minha janela, onde continuo há vinte e sete anos, mudando de vida sem mudar de casa, exactamente como um gato que conhece todos os telhados da vizinhança mas demora demasiado tempo a decidir qual deles é realmente seu.
Há dias em que me sinto um gato vadio, convencido de que basta saltar um muro para descobrir finalmente o lugar certo, mais boémio, mais vadio ou mais festivo e marialva. Outros dias imagino-me domesticado, satisfeito com um quintal, uma mesa comprida, dois cães a dormir ao sol e alguém, que me beija a face e que me pergunta se demoro para jantar. No fundo não procuro grande coisa. Procuro apenas aquela estabilidade discreta que não costuma aparecer nas fotografias, mas que sustenta todas as fotografias.
Agora escrevo à janela. O calor finalmente desistiu da aldeia. O céu está um laranja tórrido, o vento começa a correr pelo beco e o sol desaparece devagar atrás do castelo. O pequeno S. arma mais uma qualquer tourada no seu novo quintal, para ele enorme e os pais correm atrás dele, eu dou por mim a pensar que talvez as casas nunca pertençam verdadeiramente a quem as compra ou a quem as arrenda. Pertencem ao tempo que conseguem guardar. Ao tempo e às vidas que aceitam deixar passar.

