Premonições
“When you get right down to it, it’s the only thing that counts“
É sempre difícil o chegar do final de mais um ano. Não porque o ano tenha sido especialmente bom ou especialmente mau, essas categorias são, em geral, atribuídas com uma confiança que não corresponde aos factos mas porque somos convocados para um exercício de memória que raramente domina a matéria que convoca.
Parece sempre ingrato, de alguma forma, tentar fazer o inventário de resoluções, listas, desejos e ambições de anos anteriores, como quem abre uma gaveta antiga e encontra recibos de coisas que já não compra e promessas feitas a alguém que já não reconhece ao espelho. Há um certo embaraço silencioso em admitir que quase tudo ficou pelo caminho, não por falha moral, mas porque a vida, essa entidade sem plano nem calendário, tratou de se intrometer.
Daí que, de há uns tempos para cá, a coisa tenha-se tornado um tanto ou quanto minimalista. Uma redução estratégica, quase higiénica, das expectativas. Tentar dividir as doze passas, que sempre achei torturantes de serem comidas, saboreadas, degustadas, como se cada uma exigisse um grau de concentração incompatível com o álcool ingerido e associar-lhes desejos suficientemente modestos para não me acusarem mais tarde de ingenuidade. Nunca percebi, aliás, como há quem coma passas de livre vontade fora desse momento canónico anual. Há pessoas que as comem como quem come uma maçã, numa terça-feira qualquer, e isso diz mais sobre elas do que qualquer teste de personalidade.
As doze passas surgem agora setorizadas, organizadas como um plano estratégico de governo: saúde, economia, bem-estar, carreira, relações tudo devidamente compartimentado, como se a vida respeitasse organogramas. Tento que as resoluções sejam frugais, compatíveis com a economia do país, com a minha saúde variável e com esse conceito elástico a que chamamos bem-estar. Aprendi que desejar menos é uma forma discreta de autodefesa.
Faz-me sempre espécie, no entanto, tudo o que antecede as doze badaladas. As filas nos supermercados, os carrinhos carregados de quilos e quilos de marisco, os litros de álcool, o champanhe aberto com uma solenidade que não se repete em funerais. Há qualquer coisa de coreografado, de excessivo, nesse esforço colectivo para celebrar uma passagem que acontece quer estejamos atentos, quer não. Até porque, confidencio aqui, penso imensas vezes em experimentar deitar-me antes das doze horas. Mas, é ainda sobre excessos, apesar de eu não ser muito diferente também gosto de um bom marisco e de um copo que não saiba a remorso diverte-me observar as superstições de amigos e familiares, sobretudo quando atribuem às passas uma cadeia causal de eventos decisivos, como se o destino tivesse sido activado por uma mastigação apressada ou por um desejo mal formulado.
Este ano, talvez por cansaço ou por ironia, comi até um bolinho chinês da sorte. Como é habitual, saiu-me uma daquelas frases vagas, prontas a acomodar qualquer narrativa posterior: “um encontro inesperado irá fazer o teu coração bater mais depressa”. Vá-se lá saber o que isso significa… Um amor, um susto, uma qualquer catástrofe em que pela enésima vez num ano respiro fundo e penso: caralho, só a mim é que me acontecem destas. Fica tudo em aberto, como convém. Ainda assim, guardei o papel na carteira. Não por fé, mas porque há gestos que fazemos apenas para não desmentir completamente a hipótese de que algo possa correr melhor do que o previsto.
Não esteja eu solteiríssimo, a viver em casa dos meus pais, cada vez mais próximo de uma idade que, em criança, me parecia definitiva, quase terminal. Trinta anos dizem-me agora que são os novos vinte, o que não resolve grande coisa aproximam-se com a calma implacável de quem vê um acidente na autoestrada. Há mudanças a fazer, disso não duvido, mas não sei se existem carrinhas capazes de transportar a carga emocional necessária. Mudar de vida exige mais logística do que mudar de casa, e raramente vem com manual de instruções.
Recordo muitas vezes um excerto de uma reportagem, creio que da BBC, em que um repórter pergunta às pessoas, na rua, quais são as suas resoluções de Ano Novo. Muitas respondem, com um humor involuntariamente brilhante, que “voaram”, que “foram para o Sul”. Não consigo deixar de me rir quando revejo essa passagem, talvez porque reconheço ali a resposta mais honesta possível. As resoluções não falham simplesmente mudam de país antes de nós.
No primeiro dia do ano, naquela deslocação à bomba de gasolina, corpo em modo cambaleónico, cabeça ainda atrasada no calendário, reparei numa aranha a descer lentamente pelo vidro do carro. Descia com método, com paciência, com uma convicção que raramente tenho antes do meu primeiro café. Fiquei a observá-la tempo demais, a tentar perceber se aquilo era um sinal ou apenas uma aranha a cumprir funções básicas, hipótese que, sendo realista, tende a ganhar. Dizem que simboliza fortuna, prosperidade, paciência; dizem muita coisa, aliás, com uma certeza que nunca aplicam a salários ou a rendas. Pensei durante breves segundos num ano economicamente promissor, depois lembrei-me do saldo da minha conta bancária, ela também cheia de teias de aranha e a dita cuja perdeu imediatamente qualquer autoridade metafísica. Ainda assim, deixei-a descer. Talvez por respeito. Talvez por cansaço. Há sempre algo maior à nossa espera em qualquer lado, dizem. No meu caso, naquele momento, era apenas o café da manhã, o trânsito habitual e a suspeita bastante sólida de que o mundo continuaria exactamente igual, com ou sem sinais, o que, curiosamente, não me entristeceu.

